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Ondas

Vamos surfar? Você convida, absorto. Mas não estende a mão de verdade, ainda que ensaie o movimento. Antes, observa.  Não gosta de empolgar-se com nada. Nem de parecer indispensável. Quase consigo ouví-lo pensar: Não posso deixar que dependa de minha mão. É uma perspectiva interessante, sorver o caos, como nos quadrinhos. Talvez, se eu pudesse voar e andar de máscaras, parecesse mais legal subir na gágula mais feia do prédio mais alto do dia mais frio. Olhar o caos como quem sabe que precisa dele como precisa de pulmões. (Eu não preciso de coração, sério!) Mas eu não uso máscaras. (E aqui, você ri) Ok, eu uso, mas elas estão muito grudadas na minha pele. Pouca gente vê, afinal, a ninguém interessa. Mas faz parte da mentira afirmar coisas como essa. Elas sustentam a máscara. Ela dói menos quando a gente treina em fazê-la sumir. Ainda que seja tudo mentira, todo mundo toma sua pílula vermelha, religiosamente. E hoje eu brinquei de coisas feias, admitindo que o que faço e me dá ...

um dia

os deuses vão lhe tirar todas as noites em claro as crises as lágrimas Um dia, os arrependimentos martelarão Em estradas sem sentido Da mente Um dia, pq tudo volta tres vezes por tres vezes todas, sempre se verá feio, fraco, perdido.

Ouroboros

Como explicar que o que eu odeio reflete em um ódio mais direcionado a mim do que qualquer coisa? De ter aguentado, de ter escolhido, de ter ficado. No fim, meu ódio é arrependimento. Por acreditar, muito profundamente, que eu não valia a pena E olha só, isso me faz valer menos ainda. Eu odeio a você, e a mim, sem separar, sem tirar E nem pôr. Vazia a existência. E odeio acima de tudo, este sentimento.

Texto para Enki.

Fui à biblioteca do lugar onde trabalho, hoje. Eu evito ir até lá, pois, a contrariar com o estigma das bibliotecas, eu acho que esta é muito barulhenta. Um burburinho enxameado (já contei que tem um livro me fazendo perdoar as abelhas?) permeado por mais burburinho, numa espécie de looping infinito ecoando pelas paredes. É engraçado que no prédio antigo a biblioteca era uma bolha de silêncio e concentração. Eu SEMPRE fugia para lá. Mas nessa, não funciona assim, então, eu fujo para as árvores, ou para minha sala. Mas, hoje ao ir para lá, ela me recebeu com mais silêncio do que das outras vezes. Lembrei, portanto, o quanto eu gosto das bibliotecas e fiquei por lá, acarinhando as paredes e mantendo contato com todos aqueles livros juntos. Gosto de visitar bibliotecas com o espírito de exploração, como quando fazemos visitas as livrarias. Tiro os livros inimagináveis das estantes, olho os índices, folheio. Amigos em potencial, é o que são, a espera que alguém os veja e dialogue com eles...

Poema do Borges

O Milor traduziu: AQUI LIMITES De todas as ruas que escurecem ao pôr-do-sol, deve haver uma (qual, eu não sei dizer) em que já passei pela última vez sem perceber, refém daquele Alguém que, com antecedência, fixa leis onipotentes, ajusta uma balança secreta e inflexível para todas as sombras, formas e sonhos tecidos na textura desta vida. Se há um limite para todas as coisas e uma medida e uma última vez, e nada mais, e esquecimento, quem nos dirá a quem nesta casa nós, sem saber, já dissemos adeus? Pela janela que amanhece a noite se retira e entre os livros empilhados que lançam sombras irregulares na mesa baça, deve haver um que eu jamais lerei. Há uma porta que você fechou pra sempre e algum espelho o esperará em vão; para você as encruzilhadas parecem muito amplas, mas há um Janus, vigiando você, nos quatro cantos. Há uma entre todas tuas memórias que agora está perdida além da evocação. Você não será visto descendo àquela fonte, seja à luz do sol ...